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Tempo de agradecer

Diante de todo medo e insegurança exalados neste último ano, e cara-a-cara com um futuro próximo cercado de incertezas, me vejo refletindo sobre o uso da razão e me aproximo ainda mais de minha fé, na qual me fortaleço.

Sexta-feira, 12 de março de 2021. Agora são 6:39 da manhã. Por mais que eu queira, não tenho disciplina e disposição para fazer parte do time que inicia a rotina às cinco da manhã. Até aqui consegui atender ao Joey, nosso gato de número 2, que me pede comida assim que coloco os pés para fora da cama; abrir a casa para que o Chico, o Sancho e o Bento, nossos gatos de número 1, 3 e 4 possam passear no jardim dos fundos de casa; e fazer um café – extraído da máquina. Na manchete deste Diário, a pergunta: “Um ano depois, o que deu errado?”. O tópico é, evidentemente, a pandemia da COVID-19.

As notícias que chegam não são nada boas. O país está há 50 dias perdendo mais de mil pessoas para essa doença que se agrava a cada dia; jovens estão morrendo mais a partir da nova variante desenvolvida em solo tupiniquim; recorde de mortos em um único dia, todos os dias. Aqui no sertão, a prefeitura divulgou ontem uma campanha nas redes sociais implorando – sim, esse é o verbo empregado nas peças publicitárias – a ajuda dos munícipes, orientando que fiquem em casa em mais uma fase crítica de transmissão da doença.

Não restam dúvidas sobre estarmos vivendo tempos obscuros, que parecem muitas vezes terem saltado das páginas de uma distopia qualquer. Os ânimos exaltados de um país polarizado e à beira do colapso econômico assustam e causam temor diante dos discursos que surgem aqui e ali, mediados pelas redes sociais. A angústia de não saber “onde iremos parar” torna-se uma epidemia dentro da pandemia.

Diante de todo medo e insegurança exalados neste último ano, e cara-a-cara com um futuro próximo cercado de incertezas, me vejo refletindo sobre o uso da razão e me aproximo ainda mais de minha fé, na qual me fortaleço; em minha cabeça reverberam trechos que descubro ser do capítulo 3 do livro de Eclesiastes: “tempo de nascer e tempo de morrer”, “tempo de chorar e tempo de rir”, “tempo de guerra e tempo de paz”.

Há um ano, quando ainda estávamos entorpecidos pela surpresa das notícias acerca do novo vírus, minha esposa me disse: “temos uma guerra pela frente”. Ela estava certa e, tristemente, já perdemos um exército de 272.889 brasileiros, enterrados com sonhos e inconformismo.

Mais do que nunca, o sonoro verso cantado por Elba Ramalho me parece fazer sentido “Porque o que se leva dessa vida, coração; é o amor que a gente tem pra dar”. Mais do que nunca a vida se revela efêmera.

Como um autêntico “caipira-pira-pora”, e com a simplicidade de quem nasceu e cresceu na boca do sertão, já não tenho palavras para expressar o quanto me entristeço pelos que partiram, pelas famílias que ficaram órfãs de amor e alegria; sinto pelo luto nacional e rogo por “paz nos desaventos” ora instalados.

Sexta-feira, 12 de março de 2021. Agora são 7:23 da manhã. Minha esposa ainda dorme. Às 19h irei à missa de um amado que partiu, vítima de câncer. A crônica de amanhã me parece pronta. Me curvo para agradecer a Deus por ter – diante de tantos absurdos – chegado aos 41 anos com saúde.

Prof. Dr. João Paulo Vani, Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

Fonte: Diário da Região

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