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Machado necessário

Permitir que o leitor em formação escolha a própria leitura é, também, uma parte importante do processo rumo ao sucesso do projeto formativo, o que não quer dizer que essa escolha deva ser totalmente aleatória.

O modo como vivemos, mais conectados a cada dia, tem feito com que nossas opiniões se tornem mais e mais suscetíveis às posições dos chamados digital influencers. E, nesta semana, a polêmica esteve em torno de Machado de Assis.

Que as leituras obrigatórias nas escolas precisam ser atualizadas e analisadas em diferentes perspectivas e contextos, não é nenhuma novidade; que falta espaço para um trabalho sério de formação de leitores, também. Entretanto, essa atribuição não pode pesar sobre as costas dos professores, já tão exauridos.

Em primeiro lugar, há de se entender, de uma vez por todas, que a literatura enquanto instrumento de aprendizado é muito maior e mais necessária que o ensino de escolas literárias: compreender as características do Romantismo ou do Realismo é importante, e mais ainda é compreender o momento histórico, os arranjos políticos e sociais, as crenças e perspectivas da sociedade da época dos chamados clássicos.

Mas, somente os clássicos servem às escolas? De modo algum. Dentro do ambiente acadêmico essa discussão é antiga, e os livros canônicos há muito dividem espaço com obras contemporâneas, como a saga de Harry Potter.

As famílias não podem esperar que seus filhos sejam bons leitores se, em casa, não existe uma dedicação conjunta ao ato de ler, ou conversar à mesa, ou discutir após as notícias do jornal da noite ou do diário impresso matinal.

Evidentemente, quem critica a leitura de Machado de Assis na escola, não conhece seus romances-folhetins, como “Helena”, que chegavam em partes, semanalmente, em jornais, incentivando a formação de novos leitores entre uma xícara de café e um pão com manteiga.

Outras ferramentas podem ser úteis nessa jornada, como jogar “Stop” ou “Scrabble”, jogos que desafiam nosso vocabulário, além das quase sempre esquecidas “palavras cruzadas”. Somente com dedicação é que a formação de novos leitores se torna impossível.

Permitir que o leitor em formação escolha a própria leitura é, também, uma parte importante do processo rumo ao sucesso do projeto formativo, o que não quer dizer que essa escolha deva ser totalmente aleatória. Se a leitura é um hábito, e o incentivo deve vir de casa, é fundamental então que os pais estejam atentos às aptidões dos filhos, de modo a orientar caminhos para os novos leitores: se as crianças gostam de carros, muitos são os livros que trazem informações sobre a indústria automobilística, ou tramas e paixões envolvendo corridas; ou, se gostam de história, livros que revelam os meandros da sociedade nos séculos XII ou XIV, em castelos de lords ingleses com espadas e duelos, romances de época com mocinhas prontas para debutar, que revelam em camadas mais profundas, o quanto a sociedade precisava mudar, e certamente, o quanto já evoluiu.

O tempo investido na formação de leitores será o principal ingrediente para a formação – e o sucesso – das gerações futuras, afinal, quem lê desenvolve o pensamento crítico e, sem ele, o cidadão é incapaz de exercer, de modo pleno, os direitos que lhe são consignados pela sociedade. Enfim, em 2021, Machado ainda é necessário.

Fonte: Diário da Região

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