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A desumanidade e esperança

E assim, acuados em nossas casas, longe das pessoas que amamos e da rotina costumeira – e absolutamente necessária – vimos o tempo passar de um modo diferente, e tivemos de aprender uma nova forma de viver.

“Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo, que tudo se realize no ano que vai nascer…”. Era assim, cantando, que muitas famílias iniciavam um novo ciclo nos anos 1980. E, desde minha entrada na idade adulta, não me recordo de período com o escoar tão custoso, e que o desejo da chegada dessa promessa trazida pelo novo ano fosse tão grande como aconteceu em 2020, o que nos faz pensar em como a percepção que temos sobre o tempo é interessante.

O ano recém-encerrado ficará para sempre marcado pelos eventos sanitários que surpreenderam o mundo, trazendo, em escala global, a incerteza do que poderia vir adiante, pois o inimaginável acontecia diante de nossos olhos atônitos: mesmo com incalculáveis avanços da ciência, a humanidade tornou-se vítima de uma pandemia, cuja narrativa parecia ter saído de um conto de terror.

E assim, acuados em nossas casas, longe das pessoas que amamos e da rotina costumeira – e absolutamente necessária – vimos o tempo passar de um modo diferente, e tivemos de aprender uma nova forma de viver: essa realidade brutal e global do “confinamento” se deu aqui, no sertão de Rio Preto, em grandes metrópoles como Nova York e Berlim, e em diversos confins da terra, independente do clima, credo ou língua. Não havia saída. E ninguém escapou.

Para o teórico português Sanchez Flores, “o que é desconhecido gera medo e insegurança, por ser indefinível, imprevisível e incontrolável” e, nessa mesma linha, a psicóloga Claudia Hammond explica como percebemos o tempo, e o fato de o sistema cerebral de registro da passagem do tempo ser impactado por emoções, expectativa e até por questões sensoriais, como audição e visão.

Desse modo, podemos compreender que termos sido atropelados pelo “imprevisível e incontrolável” deu o tom de toda a insegurança que temos vivido no enfrentamento da pandemia da COVID-19, gerando leituras e percepções distintas, tendo em vista o modo como cada um de nós vê o mundo, além das dificuldades trazidas pelo que a imprensa batizou de “novo normal”. Mas, a pergunta que me faço é: será que, enquanto atores sociais, seremos capazes de sair desse evento de magnitude global melhores do que entramos? O fato de termos tido nossa liberdade suprimida, e vivenciado um período de perdas muito sentidas, será suficiente para mudanças de postura? Para o aumento da solidariedade? Para a diminuição da corrupção? Temo que não.

Os noticiários, que meses atrás nos assustavam com informações sobre a escalada da doença, agora nos deixam sem palavras ao revelar uma nova onda global de contaminação com forte impacto em nosso país, cujos governantes, inconsequentes, deixam doentes morrerem asfixiados por falta de oxigênio, desviam dinheiro do combate à pandemia e fazem pouco da dor de mais de 200 mil famílias.

Desejo, enfim, que a magia do novo ciclo nos traga esperança, para seguirmos adiante, e que a história registre toda a desumanidade tupiniquim, para que não se repita jamais.

Prof. Dr. João Paulo Vani, Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

Fonte: Diário da Região

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